CONTO

O JULGAMENTO

 

            É chegada a hora. Mas não é qualquer hora. É uma hora que começou há tantas horas de dias antes. É uma hora que veio se arrastando lentamente por aqueles dias longínquos, pelos meses, pelos últimos dois anos. E eu poderia ter escapado dessa hora, afinal, ela caminhava lentamente. Mas fugir por quê? Por causa da terrível sensação que o medo causa? E para que fugir? Para não ver os milhares de olhos e dedos acusadores? Não. Nada superaria o que antes de tudo isso eu já havia sentido: o peso que, dia após dia, as horas lentas me causavam.

            E aqui estou eu a caminho do gran finale. Alguns lançam palavras como se fossem flechas. Não querem matar-me. Querem apenas ferir-me. O que é bem pior. Mas o que são as flechas sem o arco? Continuam sendo flechas, claro. No entanto, mais fracas. Outros me apontam com seus dedos acusadores. Mas o que é um dedo acusador senão apenas um dos movimentos mais fáceis que o corpo humano pode fazer? Tente apontar para a sua própria face e veja que o esforço empregado é bem maior do que apontar para a face do outro. Assim, compreendo a escolha do mais fácil. E outros miram-me pesadamente com seus olhos. Mas basta que eu os mire levemente, mesmo tendo a opção de cerrar os meus olhos para eles. Observo apenas uma pessoa com uma tocha para queimar-me e em cinzas me transformar. Mas quão bom é saber que as cinzas são necessárias para renovar a terra…

            Ainda foram gentis ao permitirem que eu falasse algumas palavras em minha defesa. Veja bem: algumas palavras. Então parei e pensei: Que sentido faz eu me defender quando não tem uma pessoa sequer a meu favor? Qual o sentido das minhas palavras de defesa quando todos já estão de costas para mim? Sim, sei que eles continuariam ouvindo. Mas o fato é: não quero ser escutada apenas com os ouvidos. Minha voz necessita de todo o corpo e de toda a alma. Diante dessa rápida reflexão sobre termos prévios e inicialmente banais, minha decisão é calar-me.

            Decido calar-me, sim, por a tempo certo ter reconhecido os meus erros e ter pedido a remissão dos mesmos, mas ainda sim ter recebido apenas incompreensão e indiferença. Decido calar-me para não cometer o mesmo erro deles: o julgamento sem conhecimento e sem fundamento. Decido calar-me para que eu não veja olhares de constrangimento pela verdade comprovada. Decido calar-me para preservar o bem que ainda existe. Decido calar-me por saber que nessa hora final é quase impossível criar um diálogo entre níveis diferentes de sentimentos e entendimentos. Decido calar-me por estar em paz. Decido calar-me por saber que este julgamento não vale nada diante do julgamento de Deus: o Juíz que conhece toda a verdade. Sendo assim, é com graça e leveza que estou pronta para não ser absolvida.

Thais Samara de Castro Bezerra

Anúncios