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             Desde criança eu sempre alimentava minhas imaginações. Na verdade, era uma retroalimentação, pois as minhas imaginações também alimentavam algo em mim. E, chegou um tempo, em que eu ficava imaginando a origem das coisas e, mais ainda, a origem dos nomes das coisas. Por exemplo, lembro que eu ficava falando, repetidamente e pausadamente a palavra “chupeta”, e ficava me perguntando por que aquela coisa, ou objeto, tinha esse nome.

Com o passar do tempo, minhas imaginações foram evoluindo (ou não) da questão da origem das coisas ou do nome das coisas para o seguinte questionamento: “Se eu pudesse escolher ser um objeto, qual objeto eu seria?” Então eu ficava olhando para os objetos que tinham dentro de casa e imaginando até os que, porventura, não existissem na minha casa.  Daí eu imagina ser uma mesa, uma cadeira e até mesmo um criado-mudo, uma opção que eu amava também. Eu imaginava um criado-mudo meio rústico em que coisas importantes e necessárias seriam guardadas, como, por exemplo, livros. Livros! Também, já na juventude, eu ficava pensando: “E se eu fosse um livro? Não. Pois sendo um só livro, não teria conhecimento de tantos outros”. Mas só uma opção ou palavra permanecia por mais tempo: a palavra “pedra”. Então eu questionava: “Mas a pedra é um objeto?” E,  segundo o meu conhecimento do que era e do que não era um objeto, eu terminava afirmando que a pedra não era um objeto. Mas eu logo resolvia a questão, me convencendo que a pedra era uma “coisa” e que, se eu pudesse ser uma “coisa”, eu seria uma “pedra”. Então a imaginação passou de “objeto” para “coisa”, ampliando o meu leque de opções.

Depois, à medida que eu ía saindo da adolescência, eu me questionava: “Por que eu gostaria de ser uma pedra?” Eu imaginava todos os tipos de pedras. Eu me imaginava sendo uma pequena pedra, que poderia sair rolando pelo mundo cada vez que alguém, andando, poderia me chutar. Depois eu me imaginava sendo uma pedra que alguém pudesse sentar, ficar em pé ou mesmo deitar-se de modo que seu corpo acompanhasse o meu contorno enquanto pedra. Eu também me imaginava sendo uma pedra bem gigante e imponente, não para que as pessoas me vissem e admirassem, mas, ao contrário, para que eu pudesse enxergar vidas de outro ângulo. E, por fim, eu me imagina sendo uma daquelas pedrinhas que ficam calhadas em alguma água corrente, sendo moldada.

E, em todos esses tipos de pedras que eu me imaginava ser, eu perguntava: “Mas por que uma pedra?” E, até hoje eu não tenho uma resposta. Tenho suposições apenas. Talvez eu quisesse ser uma pedra porque ela é uma “coisa” natural, e gosto de coisas naturais… Depois eu pensava: “Talvez eu quisesse ser uma pedra porque ela não tem sentimento, não precisa obedecer a padrões e regras e não sente nenhum tipo de dor”. Ou talvez eu gostaria de ser uma pedra por saber que quase tudo ela suporta sem se alterar significativamente. Ainda que a triturem, ela continuará sendo pedra. Mesmo em pedaços, a pedra serve de base. E base é tudo. Portanto, onde e como quer que a pedra esteja, ela simplesmente permanece em sua essência.

Thais Samara de Castro Bezerra

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