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E chega um momento em que as pessoas se encontram distantes, afastadas e não mais se reconhecem exatamente como antes. Talvez uma pessoa abandona a outra primeiro. Talvez não. Talvez ambas abandonam-se ao mesmo tempo.
O abandono surge não obrigatoriamente porque o afeto ou o amor entre as pessoas tenham acabado. Não porque os carinhos acabaram. Não porque aquele afago não existe mais. Não porque a comida preferida não é mais feita ou oferecida. Não porque as surpresas não fazem mais parte das datas especiais. Não porque as palavras diminuíram…
O abandono surge porque as pessoas não olham e não sentem mais as almas uma da outra. Porque as pessoas esquecem-se de olhar, cotidianamente, nos olhos uma da outra, que são as janelas das almas. Os olhos apenas passam uns pelos outros. É assim que, muito mais do que os olhos, são os olhares que são perdidos. E os olhares são reflexos da alma, e a alma é tudo o que deve importar entre as pessoas.
O abandono se dá pelo esquecimento gradual da alma do outro, daquela alma que foi conquistada. E quando o abandono é sentido, com o tempo, a gente termina se cansando de esperar, de esperar por algo que antes não era preciso esperar. Com o tempo, a gente cansa de apenas se doar, por mais que esse seja um desejo constante da nossa parte. Com o tempo a gente cansa de se esforçar, porque o outro já nem sabe o que é isso. A nossa alma cansa de sofrer e chorar por algo que nunca voltará a ser o que era antes.
E então depois de muito sofrer as consequências de um abandono, criamos forças para deixar para trás tudo o que nos cansou. Sim, passamos a abandonar também. Mas não o afeto, não o amor, não os sentimentos. Tudo isso continuamos a guardar, intactos. Mas abandonamos velhas atitudes. Abandonamos não por querer fazer a mesma coisa que nos fizeram. Abandonamos não por vingança. Abandonamos as velhas atitudes não porque a outra pessoa já não as corresponde, mas simplesmente porque ela já não se sente mais a vontade com as mesmas.
E é preciso ter uma alma muito leve para que o fato de ter sido abandonado e o fato de abandonar (gestos, atitudes e olhares), não corrompam nosso coração. É preciso uma alma leve para manter o coração firme e limpo, sem manchas que possam sujar outras relações com outras pessoas. É preciso ter uma alma leve para que se tenha a consciência de que qualquer relação está sujeita ao abandono e que, nem mesmo por esse motivo, devemos nos sentir obrigados a abandonar os sentimentos.
Mas, apesar de tudo e sobretudo, é urgente que internalizemos a famosa frase de Antoine Saint-Exupéry: “E tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas”. Não cativemos por cativar. Não cativemos para satisfazer necessidades momentâneas. Não cativemos para depois não mais cativar… Porque o ato de cativar nunca esteve voltado apenas para uma pessoa, mas sim, para a sua alma…

Thais Samara de Castro Bezerra

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