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Existia um lugar bem distante. Mas desde já, o que é um lugar distante? O que faz um lugar ser perto ou distante? O lugar que é perto, às vezes pode ser ou estar distante, não? E o lugar que é tão distante, pode estar tão perto, certo? Vejam quanta relatividade! No caso dessa pequena história, a distância refere-se mais ao espaço físico do que ao espaço dos sentidos e sentimentos.
Era um lugar pequeno. Mas também era um lugar grande. E o que vem a ser pequeno ou grande? Bem, apenas sei que o lugar era pequeno em relação a tantos outros lugares, cidade e regiões. Mas era um lugar que se fazia tão grande quanto um bom coração. Já um bom coração, mais fácil de definir: não há a intenção da maldade e não há limites para a bondade. Assim era esse lugar: o que, à primeira vista parecia de mal nele, na verdade era o princípio básico para florescer o bem.
O lugar tinha um céu de um azul encantador. Não por ser um azul forte, mas por ser aquela cor que ficava sobre as cabeças, aquela cor que te obriga a inclinar o pescoço várias vezes até captar a sua essência, aquela cor que te prende sem que tu percebas de imediato.
O verde era pouco e suas variações também. Era um verde aqui, outro ali… e outro verde bem distante dos olhos que o procuravam. A primeira impressão é a de que a ausência do verde pesa demais naquela paisagem. Mas não deveria ser um pesar. Nem sempre o que parece ser mais belo e mais vivo é conveniente ou necessário. Às vezes o lugar te prende por ser exatamente como ele é…
A diversidade das cores secas era bem maior. Mas por que cores “secas”? Afirmar que existem cores secas implica em afirmar que existem cores “molhadas”? Naquele lugar, as cores secas, assim muitos diziam, eram aquelas cores que estavam enraizadas na terra ou espalhadas sobre ela. Alí, a cor seca estava na dimensão predominante: as pedras, a areia, a poeira, os gravetos e galhos, as formigas e lagartixas, as folhas mortas (mas que parecem vivas quando o vento as movimentam), as sementes, os troncos, uma casinha de barro, a cerca que demarca os espaços, os pés cinzentos e a casa de maribondo.
Aquilo tudo, e muito mais, formava o que chamam de “cores secas”. E todas essas cores secas faziam um grande entrelaçamento no meu coração. Muitos olhavam aquelas cores secas com olhos secos e rígidos também. Outros olhavam com olhos de lamentação e melancolia. Os olhares transformavam aquele lugar em um lugar ruim. Ao menos era isso que aqueles olhares deixavam transparecer. Mas, quanto a mim, quanto ao meu olhar, nada me parecia ruim. Tudo apenas parecia exigir um pouco mais de sensibilidade. E só por isso, por exigir e estimular a sensibilidade, era que, o que era ruim, à primeira vista, na verdade, era a parte boa daquele lugar.
Então eu parava e olhava cada detalhe, cada movimento e tempos daquele lugar: ele clamava por cuidado e respeito, justamente por ser aquela mistura de fragilidade e fortaleza. Para se ter cuidado, é necessário uma sensibilidade ímpar, e para se ter respeito também, pois não se trata apenas de razão, mas de comoção pelo fato, ainda que ele esteja distante do ideal de quem o olha.
O lugar era bastante silencioso. As cores eram silenciosas, mesmo os verdes que ali estavam. E o azul então! Era de um silêncio sem igual! Por vezes, não tão raras vezes, aquele lugar parecia um cenário: cada coisa no seu lugar e o silêncio reinando até que os atores entrem em cena. E eis que eu entrava em cena naquele lugar: todas aquelas cores e mais as cores das cenas eu que imaginava faziam festa dentro de mim. As cores do passado, as cores do presente e as cores de um futuro desejado estavam todas ali, naquele lugar tão distante e tão perto…
Existe um lugar que, apesar de parecer inóspito, é como se algumas pessoas que amo estivessem dissolvidas nas cores dele. E isso basta para que esse lugar seja amavelmente habitável…

Thais Samara de Castro Bezerra
(escrito em 29 de dezembro de 2012)

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