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É doloroso escrever cada palavra desse ensaio. Mas ainda que seja doloroso, é urgente. E ainda que o ensaio pareça um tanto quanto exagerado, ele perde comparando-se com a realidade da dor.
Assim, começo dizendo: vai ser muito difícil. Difícil já é algo que “é muito”. Então “muito difícil” é algo que compõe a dimensão “quase insuportável de superar”. Alguns momentos parecerão insuportáveis. Outros momentos, devastadores… desertos… Confesso: em alguns momentos sua respiração irá faltar e terá algumas tonturas, vertigens…
Chorar será uma constância. Durante algumas noites, com os braços apoiados na janela aberta do quarto, suas lágrimas serão como a quantidade das estrelas no céu: praticamente impossível de contá-las em sua totalidade. E quando vires um avião cruzando o céu, desejarás que ele te leve até ela. E ficarás frustrado por pensar numa tolice como essa, por saber que é algo irreal. Mas logo em seguida compreenderás que isso funciona como um consolo: imaginar as soluções… No dia seguinte, durante a rotina, pela janela do ônibus mesmo, você vai olhar para as nuvens, e vai conseguir identificar vários desenhos que lembram a forma dela ou de algo que ela gostava, e depois ficarás meio atordoado quando perceber que saltou na parada de ônibus errada.
Quando estiveres doente, nenhum remédio te satisfará. Tudo o que tu vais querer é ela, mesmo sabendo que ela jamais poderia curar a tua doença. Mas tu irás desejá-la para que te segures quando fores vomitar, e também quando sentires intermináveis tonturas. Irás querer que ela esteja ao seu lado quando tiveres uma crise de asma, pois ela sairá correndo atrás do aparelho, colocará a máscara em teu rosto e ficará lá: olhando para ti até que perceba que a sua respiração esteja voltando ao normal. Nas noites de febre, irás desejar que ela te levante, tire toda a sua roupa e te dê um banho, na esperança que a febre baixe. E ainda que muitos digam que “febre e banho” não seja bom procedimento, tu continuarás a desejar que ela faça isso, apenas pelo fato de ser ela quem estaria ali, cuidando de ti da melhor forma que ela acharia. E quando estiveres com gripe e tossindo, desejarás que ela te acorde muito cedo e te coloque para tomar banho a fim de que saia toda a secreção, e em seguida te daria um copo cheio de “mastruz com leite”, pois se ela dizia que era bom, então é porque era bom (não adiantaria discutir com ela). Em todas as vezes em que estiveres doente, tu só irás querer que ela fique ali: ao teu lado, fazendo um afago, orando por ti e te ensinando a orar, para que tu aprendas a pedir a Deus que Ele cure a tua doença.
Em muitos momentos tu ficarás olhando para todos os lados pensando que ela poderá estar “escondidinha” em algum lugar. Irás imaginar que ela poderia estar entrando pela porta do teu quarto. Nas ruas, andarás como se fosse encontrar com ela na próxima esquina, e ficarás imaginando como seria o encontro, a surpresa. Encontrarás alguma pessoa parecida com ela, mas não será ela. Depois tua imaginação ficará mais fértil: começarás a imaginar que ela poderia estar dentro do teu armário de livros, ou dentro do teu guarda-roupa. Vais imaginar que ela poderia estar debaixo da tua cama ou mesmo atrás de ti, pronta para te dar um susto de brincadeira, e vocês cairiam na gargalhada. Mas vai ser desolador quando você perceber que ela não estará em lugar algum…
E aquele momento em que você chegará em casa, cansado ou triste por alguma decepção, pensarás que ela estará te esperando no sofá da sala, com a mesa posta para o jantar, com as suas comidas e sucos preferidos. Ela esperaria tu tomares banho e jantar, para então tu deitares tua cabeça no colo dela, conversar um pouco, até que tu pegarias no sono e ela, morrendo de pena, te chamarias para “dormir melhor” na cama. Mas tu dirias que queria dormir com ela, e ela não tinha tempo nem para dizer “não”, pois tu já terias se jogado na cama dela.
Mas ela não estará no sofá… E muitas vezes acordarás pensando que encontrarás uma mesa com o café da manhã prontinho: a papa de aveia ou de chocolate, o pão com queijo ou ovo, o café com leite ou achocolatado gelado e alguns biscoitos. Mas não. És tu quem terá que perder tempo fazendo o café com um pão apenas com manteiga, pois não terás tempo para fazer a “papa”, fritar ovos ou assar queijo, afinal, tua vida de adulto será corrida… E nas horas do almoço, irás para casa pensando que ela terá feito seu macarrão com suco de maracujá, além da salada fresquinha que ela te ensinou a gostar. Então entrarás em casa, e a mesa estará do mesmo jeito de sempre: com livros, tintas, e xícaras de café espalhadas. Será triste. Será doloroso. Tuas lágrimas vão rolar. Então tu decidirás sair de casa para ir almoçar em um restaurante qualquer, porque “qualquer comida” será a mesma coisa, já que não será a dela…
Vai ter aquele momento em que tu irás sentar e ficar como se fosse assistir a um filme, só que um filme que tu já havias assistido, mas que tinha perdido algo, algum detalhe da cena. O filme será sobre a sua infância e/ou adolescência. E a parte que tu tentarás identificar é o momento em que tu soubesses que ela era muito importante para ti. E começará a te dar um leve desespero caso você não identifique esse momento. Mas depois conseguirás identificar, em algum momento tu tivesses essa certeza, ainda que não lembres, acredite. Lembro, com certo desespero, quando eu identifiquei esse meu momento. Eu tinha por volta de 8 anos de idade, e estava na casa de uma tia, em outra cidade. Todos estavam dormindo. E algo não deixava que eu dormisse. Eu deitava e levantava a todo instante. Decidi ir até a cozinha, peguei uma maçã, pois eu achava que comer me distrairia. Foi muito pior. Eu comecei a lembrar dela. A sentir a falta dela. As mordidas na maçã iam ficando mais agressivas à medida que eu imaginava a ausência dela na minha vida. Era algo tão difícil de imaginar, que todo o meu esforço se transformou em lágrimas. E como eu soluçava!
Então ali, naquele momento, eu havia descoberto o quanto ela era importante, o quanto eu a amava: amava de tal maneira que não consegui imaginar a minha vida sem ela. Logo eu: uma criança que vivia no mundo das imaginações… Sim, havia descoberto que a amava e que se um dia ela me faltasse, eu poderia voltar a chorar como naquele instante. Mas o que eu nunca pude descobrir foi como essa falta seria incalculável… E que aquelas lágrimas misturadas com o gosto da maçã não seriam nada diante da dor real da sua ausência.
Vai ter um momento em que tu ficarás com medo de esquecê-la. Então começarás a encontrar formas que a lembrem para sempre. Tu irás procurar as cores dela, o estilo dela, o cheiro dela e os milhões de significados dos olhares dela. Tu irás tentar lembrar cada sensação: do toque das mãos dela em seus cabelos, e das suas mãos nos cabelos dela; vais querer lembrar até mesmo do peso e das curvas do cabelo dela; da sensação de escutar a voz dela dando “bom dia” e te acordando para não te atrasares para a escola; da sensação dela te abraçando e te deixando envergonhado por te elogiar na frente das amigas dela; e vais lembrar também da sensação de quando ela te repreendia, dizendo para ti que não adiantava mentir para ela, pois ninguém te conhecia como ela. Vai ser difícil tentar lembrar tudo isso. Muitas vezes será um trabalho árduo mesmo, mas aprenderás que esse é o tipo de trabalho que não dá para ser feito em um dia apenas. Essa vai ser o tipo de dor que terás que sentir dia após dia, todo dia um pouquinho…
Algumas vezes passarás horas lembrando-te dos planos que tinha feito junto com ela. E vais olhar para a tua vida e procurar quais deles tu realizastes. Alguns, terás realizado. Outros, não. E correrás o risco de se deparar com o fato de não ter realizado os teus planos mais ousados justamente pela ausência dela, pois muito provavelmente ela seria a única a te apoiar 100% em todos os sentidos. E tu irás chorar quando se ver sem saber mais como é sonhar, pois ela era quem te ensinava isso todos os dias. Não apenas ensinava, mas te “obrigava” a praticar os sonhos. Sim, naquele tempo eram sonhos pequenos, mas eram sonhos que estavam de acordo com o teu “tamanho”. E tu irás ficar admirado quando olhar para trás e ver como ela era ousada nos sonhos…
E olhando para o que tu realizaste na vida, poderás pensar que tudo o que fizestes foi meio que em vão, que de pouco serviu e que tudo o que ainda tens para fazer nunca terá um sentido máximo sem a presença dela para contemplar. Isso tudo vai te fazer pensar que a vida não tem mais sentido algum (e esse momento é terrível). Para que uma casa própria desenhada por ti, se o quarto dela estará vazio? Para que casar se o lugar dela no altar estará vazio? Para que sentir a dor de ter um filho se ela não estará segurando as tuas mãos te dando a sensação de certeza de que tudo dará certo, como nas tuas noites doentes? Para que estudar tanto ou arrumar aquele desejado emprego, se ela de nada disso desfrutará? Sim, tu imaginarás muitos momentos em que ela nunca estará. E isso vai te machucar muito…
Mas depois de muito sofrer de forma mais intensa, com o tempo, como que obra de Deus, seus olhos e coração vão ficando mais leves. E então aqueles momentos mágicos irão surgindo aos poucos. Um dos momentos mágicos, por incrível que pareça, é bem racional: tu irás constatar que ela nunca mais voltará, que ela não fará parte de nenhum dos momentos próximos de sua vida e que o teu sofrer intenso não vai adiantar de nada. Parece insensível? Sim, pode parecer. Mas essa será uma inevitável constatação tua, acredite. E quando você chegar nessa fase, não te enganes: não será fácil. Será excruciante! Será uma dor que parece cortar! E onde está a mágica nesse momento terrível? Está justamente no fato de que esse momento é essencial para que tu percebas que ainda continuas vivo, apesar de ter vivido tanto sofrimento até essa fase.
Sim. Depois de tudo ainda estarás vivo, perceberás isso. E estarás um pouco mais resistente à dor. E é por isso que conseguirás perceber momentos mágicos. Então não irás mais procurá-la debaixo da tua cama, nem nos armários e muito menos nas ruas. Não irás mais esperar por janta, café ou almoço, postos na mesa. Nas noites em que estiveres doente, farás o que ela faria. Apenas o céu… Ah… o céu… ele será sempre a referência externa mais próxima dela. Então, com o tempo, irás descobrir que ela sempre esteve e está no lugar mais seguro e especial do mundo, um lugar onde ninguém tem o poder de tirá-la, que é o teu coração. E lá, irás encontrar tudo o que precisa: o amor dela, a coragem dela, os olhares, a influência dela em suas decisões e em suas manias, jeitos e trejeitos, gostos e desgostos, e vai encontrar as lições de como sonhar e, como mágica, encontrarás a renovação do sentido da vida. Sim, renovarás o sentido de viver, porque verás que tu és uma parte dela, portanto, muitos dos teus jeitos, pensamentos e atitudes serão como os dela. Perceberás que tu és a continuação dela.
E tudo isso te fará sentir vivo novamente, acredite. E tudo isso te aquecerá todas as noites… Não importa onde, como, quando ou com quem tu estarás: todas essas sensações te aquecerão sempre. E tenhas a certeza: vai chegar o momento em que tu dirás que isso basta diante de toda a dor intensa que já terás sobrevivido. E saberás agradecer a Deus por ter alcançado esse nível de entendimento, sentimento e alma. Lembre-se: será um caminho longo, cheio de espinhos e pedras que te machucarão a todo instante, sangrando e rasgando a alma. Mas será possível percorrê-lo, porque ela, a tua mãe, estará contigo, não ao teu lado, mas dentro de ti.

THAIS SAMARA DE CASTRO BEZERRA
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TEXTO ESCRITO ORIGINALMENTE NO DIA 04 DE MARÇO DE 2013.
E HOJE, QUE COMPLETA 14 ANOS QUE VOCÊ “SE FOI”, MAINHA, CONTINUO ACHANDO QUE FOI ONTEM… SAUDADES SEMPRE. AMOR SEMPRE. COMO SEMPRE FOI… E A FELICIDADE DE TER SIDO TUA FILHA… PRESENTE DE DEUS.

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